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África, um continente Jovem com líderes Idosos


Há pouco mais de dez anos, o professor universitário canadense Louis Sabourin disse algo como: “Se a África pode ser definida no singular, deve ser composta e declinada no plural. Não acho que estou errado em dizer que o seu passado ainda não está definido, seu presente não é perfeito e seu futuro é condicional."


A verdade é que, em África, são numerosos os fatores de todo o tipo (económicos, sociais, financeiros, políticos, geográficos, etc.) que constituem um quebra-cabeças muito extenso e que não pode ser analisado de forma imprudente.


Infelizmente, é um continente que não tem muita imprensa e, em alguns casos, quem opta por cobrir algo apenas o apresenta como um espaço de constantes riscos e conflitos. Não esquecer os aspetos mais promissores, de alguma forma, ajudaria a colocá-lo na mira de investimentos positivos.


Por que não está avançando?


Talvez a maior desvantagem que deixou a África nas margens é a falta de bons governos e instituições respeitáveis​​ (é claro, sem colocar todos no mesmo saco, sempre há exceções). Sabemos que se um país tiver um bom governo, mais cedo ou mais tarde, os investimentos virão. Esses tipos de cenários fornecem confiança, segurança e uma base sólida na qual se apoiar (olhando todo desde a perspetiva de alguém que está investindo dinheiro).


Em muitos países africanos, desde a época da independência até os dias atuais, a pobreza institucional parece que veio para ficar. Centenas de dirigentes políticos decidem durante seu tempo nos principais cargos públicos (se é que esse tempo acaba algum dia e não decidem ficar para sempre), controlar absolutamente tudo, tornando-se um Estado intervencionista que, consequentemente, desestimula o investimento estrangeiro.


A integração regional é outro sonho utópico desde os dias da independência africana. Uma situação que, além de ser benéfica (dependendo do seu ponto de vista) geraria uma força indiscutível se pensarmos que o mundo de hoje se move em blocos regionais.


A realidade é que esse processo, além de lento, avança com grandes dificuldades. As elites africanas obviamente não querem perder o "status quo" de décadas para a integração econômica subcontinental.


Se fizermos um breve cronograma, durante os anos 1970 o continente estava atolado em dívidas. O contexto internacional há anos encontra formas de favorecer o endividamento dos países em desenvolvimento. E a África não foi e não é exceção.


Já na década de 80 o financiamento, milagrosamente obtido durante os anos 70, era impossível e o crescimento da dívida devido aos juros destrói os orçamentos nacionais.


Entrando na década de noventa foi marcada por mudanças positivas (o fim do apartheid, a democratização da África Subsariana) e negativas (conflitos inter e intra-estatais). O aumento dos conflitos no nosso continente na década de noventa está definitivamente relacionada com o fim da Guerra Fria. O continente parecia entrar em um período de esquecimento. Antes do fim da guerra fria havia um interesse político- estratégico, algo que caiu por terra com o fim da Guerra Fria e o continente foi abandonado e entregue à sua sorte.


Dinastias políticas que permanecem no controle


Embora da década dos noventa à data presente, muitos países africanos tenham optado por eleições livres e alternância política para seus governos, outros, por outro lado, continuam a ser governados por dinastias familiares que assumiram a política africana.


A transferência de comando entre pais e filhos (homens porque as mulheres não parecem contar) é algo que permanece ativo em países como a República do Jibuti, Togo ou Gabão (apenas para citar alguns).


Se analisarmos a situação no Togo, trata-se de uma família, que tem governado o país nada mais e nada menos do que os últimos cinquenta anos (mas as revoltas populares estão cada vez mais fortes). Embora já falecido, o anterior presidente do Togo, pai do atual, foi um dos que mais tempo permaneceu no poder: 38 anos.


O ex-presidente do Gabão, falecido em 2009, governou o país por 42 anos e deixou o filho no poder, que, embora tenha vencido as eleições para muitos teve fraude. Como adicional a isso, os principais movimentos de direitos humanos descrevem o Gabão como um "regime cleptocrático".


Se procurarmos a definição no Google, a Wikipedia nos diz que “a cleptocracia ocorre quando uma nação deixa de ser governada por um Estado de Direito imparcial e passa a ser governada pelo poder discricionário de pessoas que tomaram o poder político nos diversos níveis e que conseguem transformar esse poder político em valor econômico, por diversos modos.”


Na Guiné Equatorial, o seu presidente é conhecido não só pelo seu estilo de vida opulento, mas também porque é o governante africano que mais tempo serviu como presidente: 42 anos (que também prepara um dos seus filhos como sucessor).


Dado o exposto, não é difícil analisar que a situação no continente africano é complexa. Os governos de longa data encorajam a corrupção, a formação de elites e a distribuição de poder para poucos. Muitos deles começaram as suas gestões há mais de quatro décadas e é do conhecimento de todos que o mundo mudou muito rapidamente. Essa falta de perspetiva e a ambição de permanecer no poder lentamente colocou a África em um beco sem saída.

Aristides Mandinga