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F. Delfim da Silva: Uma Perda Irreparável-Tchico Té

Francisco Mendes

(7 fevereiro 1939 - 7 julho 1978)


Tchico Té muri, PAIGC cabá” (com a morte de Francisco Mendes, o PAIGC acabou) foi com esta frase que Salum Sanhá, então delegado regional de Educação, dirigiu-se a mim naquela manhã de 7 de julho de 1978, no Hospital de Bafatá, depois de, por uns largos segundos, nos termos inclinado sobre o corpo, sem vida, do homem de, apenas, 39 anos de idade. Ainda recordo, nunca o pude esquecer, de Chico Mendes e de tanto que sofri com a sua morte prematura.


Ali permanecemos, no recinto do Hospital de Bafatá, observando um recolhimento de velório, com as pessoas pouco a pouco a chegarem; a concentrarem-se no local, silenciosamente. Até que, passado algum tempo, percebemos um ruído de motor no ar. Era um helicóptero a chegar, que vinha transladar o corpo do camarada Francisco Mendes, para Bissau.


Chegaram de helicóptero o comandante Úmaro Djaló, Comissário (isto é, ministro) das Forças Armadas e o Comandante Manuel dos Santos (Manecas). A caminho do aeroporto, todos os presentes acompanharam os restos mortais do nosso Comissário Principal (Primeiro-ministro) nessa que foi a primeira homenagem pública dedicada ao ilustre desaparecido. Chico Mendes morreu em Bafatá, terra onde nasceu Amílcar Cabral.


Salum intuiu mais qualquer coisa que, para ele, seria de muito maior gravidade - se assim se pode dizer -, do que a factualidade de um homem perder a sua vida. Aquela ênfase com que carregou as suas palavras, a quase segurança com que se exprimiu – “PAIGC acabou!” - surpreendeu-me muito. Mas como? - dizia eu para mim mesmo. Se o PAIGC foi capaz de, rapidamente, se recuperar do golpe de 20 de janeiro de 1973, que resultou no assassínio de Amílcar Cabral, e que até conseguiu galvanizar e intensificar a marcha dos combatentes rumo à vitória – perguntava-me -, de onde vinha tanto “desespero” do meu camarada Salum, subitamente confrontado com a morte de Chico Mendes, de onde? Bem, a hora não era, propriamente, para exercícios dialéticos.


Passados alguns dias voltei ao assunto, e, sem perceber bem porquê, já via a figura de Chico Mendes a crescer mais ainda. A antecipar o vazio que ele nos iria deixar. Parecia que eu já estava a deixar-me convencer pelo meu camarada Salum Sanhá. Percebi que a analogia com que contra-argumentei, continha, para ele, algo de falacioso: “cussás ta parsi, ma é ca tá djuntu” – repisava ele. A morte de Cabral era uma coisa; a morte de Tchico Té, era outra coisa.


E, hoje ainda, longe de terem sido levadas pelo vento – certamente porque as vicissitudes do PAIGC continuam a atualizá-las -, aquelas palavras com que o Salum Sanhá se me dirigiu, foram ganhando, com o tempo, ainda mais espessura.

II


Ainda antes de lhe abrir a porta, que batia de fora, uma voz conhecida apressava-se a contar-me a triste notícia. Era ainda manhã, muito cedo: “professor, camarada Tchico Té muri. Nô primêro ministru”. Era um jovem a falar para mim; que vinha da casa do seu encarregado de educação, camarada Negado da Costa, uma casa, do outro lado da rua, muito perto do prédio do camarada Aladje Mané, na praça de Bafatá, onde passei a residir depois de ter mudado da parte alta daquela cidade - “Rotcha”.


Foi na frescura daquela manhã, com Bafatá ainda a acordar na sua madrugada, que Saliu Bá então meu aluno - hoje Primeiro Super Intendente do Ministério do Interior -, me fez saber da morte de Francisco Mendes. Horas antes de me ter encontrado com Salum Sanhá, já no Hospital de Bafatá.


Mais tarde, como não podia deixar de ser, fui ao local do acidente. Para ver. Trazendo na minha mente que realmente não poderia ter sido senão “um acidente”, o meu pensamento, por assim dizer, per-formativamente, reconstruiu a informação (o pressuposto de ter ocorrido ali um acidente), processando a realidade em conformidade. Era assim, porque na minha mente não havia qualquer outro input mais do que essa informação inicial (oficial). E a quem, naquela altura, passaria pela cabeça que pudesse ter acontecido outra coisa que não um mero e fatal acidente, ocorrido num dia de grande azar?


Ali mesmo no local – contextualizando esse falado acidente -, e com algumas perguntas inevitáveis que fiz a mim mesmo, senti-me a ser lentamente invadido por algumas dúvidas. Dúvidas inquietantes. “Primeiro-ministro sozinho, alta noite, guiando ele próprio uma viatura que nem era a dele (era um automóvel branco, um Peugeot 504), sem guarda costas, sem ninguém – como assim?”.


Depois, para complicar mais ainda as coisas, foi dito que Chico Mendes, afinal, não estava só, ia acompanhado. E por quem? Um mistério, até hoje. Chegados a este ponto, passou a fazer todo o sentido perguntar: será que mataram Francisco Mendes?


Como se percebe, não quero ser eu a realimentar a tese de ter havido uma conspiração, um ato de homicídio politicamente premeditado. Contudo, não me parece razoável , descartar nenhuma hipótese, menos ainda a hipótese de assassínio. Até porque “suprimir” Tchico Té, aproveitava provavelmente a mais de um protagonista de topo, naquela altura.

III


Sepultado Francisco Mendes, o PAIGC pareceu querer “enterrar” depressa as inevitáveis dúvidas acerca das circunstâncias desse estranho “acidente de viação”. E com isso acabou por, involuntariamente, adensar mais ainda as dúvidas que queria dissipar. Leia-se, a este propósito, o que escreveu O Militante, órgão do PAIGC, e repare-se na maneira como este assunto foi abordado:


“Os militantes do PAIGC e o povo da Guiné e Cabo Verde foram duramente atingidos pelo inesperado desaparecimento do eminente dirigente do Partido e do nosso povo, camarada Francisco Mendes (Chico Té), vitima de um acidente de viação ocorrido a 7 de julho último, na estrada Bambadinca–Bafatá.


O Comité Executivo da Luta [CEL] do Partido, reunido extraordinariamente em Bissau, no dia 8, proclamou Herói Nacional o camarada Francisco Mendes. De novo reunido a 13, o CEL ouviu o relatório preliminar apresentado pela Comissão de Inquérito designada para investigar as circunstâncias em que se verificou o trágico acontecimento.


O relatório estabeleceu a inexistência de qualquer responsabilidade criminal em torno do acidente, mas a CEL decidiu que o inquérito fosse aprofundado., afim de se apurarem responsabilidades morais já detetadas. As conclusões finais da Comissão de Inquérito serão submetidas ao Conselho Superior de Luta [CSL], que reunirá em data a anunciar: é necessário que, como afirmou o Secretário-Geral, camarada Aristides Pereira, “se tirem todas as conclusões e lições” do trágico facto que foi a perda de um eminente dirigente do Partido e do Estado da Guine-Bissau.


No final da reunião do CEL de 13 de julho (seguida, no dia 18, para informação dos resultados da Comissão de Inquérito, de uma reunião extraordinária do CNG [Conselho Nacional da Guiné do PAIGC], alargada aos membros do CSL presentes em Bissau e a outros quadros), o Presidente do Conselho de Estado, camarada Luís Cabral, anunciou que o camarada João Bernardo Vieira (Nino) será designado Comissário Principal do Conselho de Estado, logo após o seu regresso da missão que cumpre num pais amigo. Essas funções serão entretanto ocupadas interinamente pelo membro da Comissão Permanente do CEL do Partido, camarada Constantino Teixeira.“


Vale a pena procurar entender a dinâmica que logo se instalou, e, talvez, detetar no meio de tanta pressa em encerrar o caso, motivos outros de uma justificada suspeita de que a narrativa oficial não ajudou muito a esclarecer a morte de Francisco Mendes:


  • (a) a Comissão de inquérito foi criada no âmbito do Comissariado [Ministério] da Segurança sem nenhuma precaução quanto a incompatibilidade óbvia que pudesse perturbar o apuramento dos factos. Desde logo, porque o Presidente Luís Cabral não decretou a suspensão de funções do então Comissário de Estado [Ministro] de Segurança que – sabe-se - foi ele quem ‘levou/acompanhou’ Francisco Mendes a Bafatá e, a seguir, também o acompanhou a Bambadinca. Quer dizer que a Comissão de Inquérito andou a fazer todo o seu trabalho estando sob a autoridade de quem [o Comissário de Estado de Segurança] teria de ser, em principio, imediatamente considerado suspeito (ao menos) de responsabilidade moral face ao que tinha acontecido na estrada entre Bambadinca e Bafatá;

  • (b) o Comissário de Estado de Segurança, além de, desde o inicio, ter sido posto acima de todas as suspeitas (o que não é fácil de perceber) também foi generosamente recompensado pelo Presidente Luís Cabral: viu a sua autoridade politica ser fortemente reforçada pela acumulação do seu antigo cargo com a nova função de Comissário Principal [Primeiro-ministro] interinamente;

  • (c) à pressa, foram arranjados dois ‘bodes expiatórios”, certamente porque eram os mais expostos (o elo mais fraco) pelo simples facto de terem recebido na “sua” região o Comissário Principal acompanhado do Comissário de Estado de Segurança. Aplicou-se-lhes uma sanção disciplinar que significou a exoneração das funções que desempenhavam, de Presidente do Comité de Estado [Governador] da Região de Bafatá e de Comandante Regional de Segurança da mesma região;

  • (d) a prometida submissão das “conclusões finais da Comissão de Inquérito ao Conselho Superior de Luta” acabou por frustrar, e ainda bem. Foi graças à atitude corajosa, digna, do Comandante Irénio Nascimento Lopes. Que, em plena reunião do CSL, decidiu confrontar o apresentador das “conclusões finais” com uma pergunta muito embaraçosa, que teve o inesperado efeito de desconstruir a metodologia processual que foi adotada, aliás, cheia de vícios. E foi aí que ocorreu uma situação inédita: ninguém respondeu à pergunta que foi posta pelo Comandante Irénio mas também ninguém mandou o relator da Comissão de Inquérito prosseguir a apresentação das “conclusões finais” do inquérito. Portanto, ficou adiada sine die a apresentação das “conclusões finais” desse inquérito., até hoje, há 42 anos;

  • (e) bem antes da tentativa de apresentação das “conclusões finais”, um chamado “relatório preliminar” - sem autópsia nem qualquer outro tipo de peritagem de apoio - já havia “estabelecido a inexistência de qualquer responsabilidade criminal em torno do acidente”. A hipótese de ter havido crime foi, assim, afastada, a priori;

IV


Daquele grupo de militantes, todos eles muito novos, que eu tenho chamado de “os dez rapazes da China” - Domingos Ramos, Chico Mendes, Nino Vieira, Osvaldo Vieira, Constantino Teixeira, Vitorino da Costa e o seu irmão Manuel Saturnino da Costa, Rui Djassi, Pedro Ramos e Hilário Rodrigues -, que passaram pela Escola Militar de Nanquim (República Popular da China), os quatro primeiros destacaram-se, pelo seu aproveitamento, como os melhores desse curso de treinamento militar em 1961.