A Consciência Social

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A Consciência Social entrevista o poeta e comentador político, Fernando Casimiro (Didinho)

 

Caro leitor, esta entrevista apresenta o ponto de vista de um dos melhores intelectuais guineenses. O poeta e comentador político falou sobre o projeto Guiné-Bissau-CONTRIBUTO, política de identidades que existem no país, a crise política e a corrupção.

 

Fernando Casimiro tem sido a “consciência moral guineense” há mais de uma década (mesmo que permaneça desconhecido pela maioria dos guineenses), sempre se manifestou contra as agressões do nosso governo, defendeu os direitos dos oprimidos desde de 2003 até à presente data.

 

As observações do poeta são suportadas por fatos verídicos, o que por sua vez são guiadas por considerações morais profundas sobre a liberdade, democracia, direitos humanos e decência humana.

A consciência Social pretende publicar esta entrevista para ajudar a apresentar as visões e as ideias do Fernando Casimiro a uma nova geração de leitores. Deste modo é importante fornecer a resistência para bloquear as forças da escuridão política guineense, principalmente para mudar o curso da nossa história para  melhor. 

 

Guiné-Bissau-CONTRIBUTO foi fundado no dia 10 de maio de 2003, mas também escreveu o livro “O meu partido é a Guiné-Bissau” que contem 3 volumes. Para os interessados podem encontrar as obras literárias aqui. Eu gostaria de saber, como conseguiu a motivação que levou à criação do projeto e à produção do livro?

 

 

A resposta sobre a motivação que levou à criação do nosso Projeto, consta no próprio registo escrito do seu percurso histórico, partilhado nos 3 volumes publicados e que passo a citar: “(…) O Projeto Guiné-Bissau CONTRIBUTO nasceu em 10 de maio de 2003, motivado pela “ameaça” do desaparecimento da Guiné-Bissau como Estado, durante a presidência de Kumba Yalá. Foram muitos os momentos de reflexão e ponderação, por forma a encontrar uma via para dar o meu contributo como guineense, na tentativa de se inverter a situação.”

 

A inspiração da reflexão que ditou o título da obra literária “O Meu Partido é a Guiné-Bissau”, advém do maltrato, pelos seus próprios filhos, que a Guiné-Bissau tem sido vítima desde a proclamação da sua independência aos dias de hoje. Não podia continuar indiferente ao sofrimento da Mãe Guiné, vendo-a maltratada, abandonada à sua sorte, ameaçada pelos próprios filhos, filiados em partidos, em grupos de interesses, ou seja, comprometidos apenas com os seus interesses e à custa da Guiné-Bissau.

 

E quem estaria disposto a tomar partido pela Guiné-Bissau, a comprometer-se com o País, na ausência de uma cultura de cidadania política, num país resignado com as práticas ditatoriais e onde os cidadãos são na sua maioria, vítimas de manipulação de consciências, de demagogia, de tráfico de influências, porquanto, tudo girar à volta do Estado, o maior empregador; dos políticos e governantes, enquanto agentes do poder, com poderes até para comprar a dignidade dos cidadãos? Era preciso politizar a sociedade para revolucioná-la numa perspetiva de responsabilidade cidadã até então inexistente.

A politização é sinónima de consciência política nacional. Uma consciência política nacional em que as vertentes, social e institucional devem ser referências dos direitos e dos deveres do cidadão.

 

Um povo que não tem noção do que é a política é um povo que está sujeito à demagogia, à manipulação. É um povo que não pode aspirar a ser participativo nas decisões que a ele próprio dizem respeito. Era preciso algo diferente para despertar, mobilizar, sensibilizar, informar, educar e consciencializar a sociedade guineense; era preciso pessoas com novas ideias, novas abordagens sobre a necessidade de, ainda que cada um tome partido pelos seus partidos políticos e pelos seus grupos de interesses, o primeiro compromisso de todos os guineenses ser para com a Guiné-Bissau, o que seria a melhor forma de todos os seus filhos voltarem a olhar por ela, a ver o seu estado de alegria ou de tristeza, as suas necessidades, as suas carências ou fragilidades, no intuito de ajudá-la a retomar a sua vida com dignidade, para assim também, recebermos sua bênção em harmonia e desfrutarmos todos, das suas potencialidades.

 

Em resumo, foi assim que decidi ter a Guiné-Bissau como meu Partido, tendo criado um mecanismo de mudança para a promoção e afirmação desse Partido, mecanismo que designei como Projeto Guiné-Bissau CONTRIBUTO, um Projeto de Cidadania que visa promover, incutir, desenvolver e dinamizar o espírito de reflexão e debate de ideias na Guiné-Bissau e nos guineenses, tendo em conta a ausência de uma Consciencialização Nacional focada para um verdadeiro Compromisso Cidadão com o País.

 

Quinze anos depois da criação do projeto- Guine Bissau- CONTRIBUTO, alcançou algum resultado positivo?

 

Quinze anos depois, a Sociedade Guineense está de facto mais evoluída em matéria de assimilação da cultura de cidadania; do conhecimento dos seus direitos e deveres, em suma, passou a ser mais participativa e, consequentemente, mais exigente relativamente ao dirigismo político e governativo do país, pois tem sido permanentemente motivada, instruída e esclarecida, por nós, sobre a base estrutural onde assenta a organização política do nosso Estado, quiçá, a Constituição e as Leis da República.

Até os políticos e os governantes despertaram para uma nova realidade nacional, fruto da evolução da sociedade.

 

Contudo, há muito trabalho a fazer, sobretudo em matéria de promoção e do incentivo  da assimilação do compromisso cidadão para com o país, e isso é notório, quando cada vez há mais partidos políticos, o que cria cada vez mais divisão entre os guineenses, pondo em causa, inclusive, a Unidade Nacional, como se tem visto ao longo das sucessivas crises políticas. Os partidos políticos têm conseguido, infelizmente, desviar os cidadãos do compromisso com o país, com a defesa do Interesse Nacional, por via dos seus próprios interesses e das suas agendas partidárias. Quinze anos depois, podemos afirmar que o nosso Contributo tem ajudado, gradualmente, na democratização do país e, sobretudo, na formação duma nova consciência nacional, virada para uma cultura de paz, de tolerância, de conhecimento e desenvolvimento, visando o bem-estar coletivo.

 

No seu ponto de vista, o que é que criou as divergências políticas que existem hoje na nossa classe política? E como é que articula a crise política, que a Guiné-Bissau vive há 4 anos?

 

Não diria haver divergências políticas na Guiné-Bissau, por questões de ideologias políticas divergentes entre os partidos políticos existentes, como muita gente diz, pois na verdade e ainda que assumam ter ideologias, na prática não têm.

 

O que tem sustentado as sucessivas crises políticas na Guiné-Bissau é a disputa do poder pelo poder, motivada pela ganância, pela ambição desmedida, visando o enriquecimento fácil, pessoal, familiar e de grupos de interesses, nos quais fazem parte os próprios partidos políticos.

Disputa de cargos, de setores de governação/administração, em função de qual é o mais “rentável” para o saque ou para a usurpação/utilização indevida de dinheiros públicos, ou dos benefícios dos acordos de exploração das riquezas naturais do país.

 

Num país onde os políticos e os governantes são os principais violadores da Constituição e das Leis da República, respeitando mais os estatutos dos partidos políticos que representam, a Impunidade tende a reinar e a (des) caraterizar a Justiça, o principal pilar do Estado de Direito e consequentemente, da salvaguarda da Legalidade democrática.

 

Um político comprometido com o país, deve ter sentido de Estado, respeitando o Poder que emana do Povo; respeitando igualmente a Constituição e as Leis da República, ora na Guiné-Bissau, nenhum político ou governante é responsabilizado judicial e criminalmente, por passar a ter milhões na conta bancária no país e fora dele, ou, por passar a ter bens patrimoniais físicos, que nunca teve e passou a ter de um dia para o outro, assim que chega ao poder. É esta apetência, gula, pelo poder de enriquecimento fácil, sem qualquer fiscalização e responsabilização, institucional, judicial e criminal, que continuará a promover e a provocar cada vez mais crises políticas, quiçá, de poder, pelo poder, na Guiné-Bissau. Basta ver quantos governos têm sido criados numa só legislatura, para que todos possam comer e calar-se, em prejuízo do Interesse Nacional.

 

É triste ver a Geração dos “Baby Boomers e a Geração X a governar e a representar o interesse nacional. É importante sermos transparentes e comprometermo-nos com a verdade. A cultura de vingança e a divisão que existe na sociedade guineense, foi criada pelos portugueses durante a era colonial. A forma como o regime colonial dividiu as diferentes etnias do país (Balantas, Manjacos Pepel etc.) para melhor implementarem o regime de opressão. Pode-se argumentar que ainda existem políticas de identidade no pais?

 

Não sei se devemos incluir na conjuntura política e social da Guiné-Bissau, numa abordagem geracional abrangente, os conceitos e as realidades do mundo ocidental, que definem quer sejam os “Baby Boomers, a Geração X e também os Millennials” em função dos anos de nascimentos que definem e caraterizam esses grupos geracionais e as suas múltiplas realidades vivenciais, entre: políticas, culturais, sociais, económicas, tecnológicas etc.

 

O que sei e tenho vivenciado, relativamente à Guiné-Bissau, é que a transição geracional guineense, na esfera do dirigismo político e da administração pública do Estado tem sido até aqui, fruto duma “naturalidade” de circunstâncias políticas, sociais, e culturais, entre outras e não de estratégias sustentáveis de desenvolvimento, concebidas através de Programas de Governação virados para a seleção, recrutamento, integração, promoção e valorização de cidadãos, independentemente da geração a que pertencem, visando mais e melhor Estado, numa perspetiva de modernidade, de ganhos e de afirmação.

 

Na verdade, a passagem de testemunho duma geração para a outra, na Guiné-Bissau, nunca foi facilitada, e remonta ao tempo do monopartidarismo, no qual o Partido único era o Estado em toda a sua representatividade e funcionalidade, o que colocava à margem do debate nacional a essência democrática, pois nem sequer se podia falar da sua legalidade, na ausência do pluralismo político caraterizador de uma conjuntura política democrática que criasse condições para a participação de todos na conceção de um Projeto de Estado de Direito e Democrático que abrisse igualmente portas para um novo modelo de sociedade na Guiné-Bissau.

 

Os mesmos de sempre, ainda que com idade avançada e com pouco ou quase nenhum sentido de Estado, ou visão de desenvolvimento, quiseram e continuam a querer estar nos lugares cimeiros do dirigismo nacional, até que a morte seja o patamar para as suas reformas no aparelho do Estado, não dando oportunidade aos mais novos, para assumirem a transição que há muito deveria ter sido feita, para que uma visão mais moderna do Estado fosse cultivada e implementada. A herança do sistema monopartidário prevalece até aos dias de hoje, enraizada que está, através de vícios e malefícios na Administração Pública, beneficiando continuamente os mesmos de sempre, de gerações mais antigas, com destaque para a geração dos “ n´bai luta” e dos seus filhos e familiares, ignorando as gerações quer do pós-independência, quer do golpe de Estado de 1980, e ainda, da guerra de 1998/99, ou seja, marcos temporais que espelham distintas realidades políticas e sociais na Guiné-Bissau.

 

Discordo que tenha sido a colonização portuguesa a criar a cultura de vingança e a promover a divisão dos guineenses, numa vertente de identificação étnica. As etnias sempre existiram na Guiné, independentemente da chegada dos colonos portugueses, ou da pertença da Guiné ao império do Mali e ao Reino de Gabu, e pelas suas existências, afirmaram naturalmente suas identidades por via dos traços culturais que os definem e caraterizam.

 

A vingança é uma atitude humana, de retaliação, que nasce da própria convivência humana, e das suas contradições, por isso, na minha modesta opinião, nem a divisão étnica, nem a promoção da cultura da vingança são frutos, ou consequências da colonização portuguesa.

Sim, concordo em certa medida que na Guiné-Bissau tem havido aproveitamento político em matéria de identidade; da definição e caraterização da identidade guineense, do ser guineense, por via de jogos de interesses sustentados pela ignorância, nalguns casos, e noutros, por um certo culto de nacionalismo puro que não passa de racismo camuflado, sendo as vítimas cidadãos guineenses, devido à cor da pele, e a um receio doentio de virem a ocupar os mais altos cargos no dirigismo político do Estado e na Administração Pública, como se alguém tem culpa de como nasce, o que é condenável e prejudicial para a própria Unidade Nacional.

 

O reconhecimento, a definição, caraterização e valorização das etnias é uma necessidade imperiosa, tendo em conta a realidade histórica, cultural e social onde assenta e se afirma a identidade nacional, que não é mais do que a soma de todas as etnias, e de todas as suas diversidades, e não deve ser confundida, sob nenhum pretexto, com a divisão política e social, entre os guineenses, fomentada por interesses político-partidários e de grupos. Como escrevi uma vez, são as etnias que fazem de nós Guineenses!

 

Um dos principais problemas na Guiné reside na falta de líderes. Um líder que inspire pessoas, honesto, com integridade e que seja racional em termos da tomada de decisão. A nossa Democracia tem de ser reconfigurada para que haja o desenvolvimento no país. É imperativo ter uma nova elite política com líderes novos, capazes de combater a corrupção. Concordas ou não a declaração?

 

Concordo em absoluto, porque na Guiné-Bissau, a banalização do conceito teórico de líder impôs uma cultura de descaraterização do seu  real significado, e quando todos podem ser líderes de alguma entidade pública ou privada, porque é necessário instituir uma estrutura hierárquica, ignora-se por completo que um líder não é apenas alguém que é eleito ou nomeado para chefiar, dirigir uma instituição, mas sim, alguém capaz de inspirar, motivar e educar pessoas, fazendo a diferença e assim, ajudar a engrandecer e a afirmar a instituição.

 

É claro que havendo instituições, há líderes, porém, o que distingue os líderes, é precisamente a liderança, ou seja, a qualidade e a capacidade de dirigir uma instituição e, obviamente, inspirar, motivar e educar pessoas que fazem parte do capital humano da instituição.

Na Guiné-Bissau é preciso investir na formação de novos líderes, tendo a liderança como objeto de fundo e isso, passa não só, pela formação académica, mas também, pelo aproveitar do carisma de liderança de jovens valores que têm despontado aqui e acolá em movimentos associativos, culturais, desportivos etc., etc.

 

A relação entre o combate à corrupção e novos líderes institucionais do dirigismo político e governativo do Estado, não é, por si só uma garantia de se pôr fim à corrupção, que é um problema mundial (uma doença ainda sem cura), enraizado na cultura desviante do ser humano e que necessita de ser combatido com medidas e programas preventivos, multidisciplinares, internos e muitas vezes necessitando de colaboração externa, porém, é sempre melhor termos novas lideranças, capazes de influenciar positivamente, com posturas de dignidade, honestidade e compromisso e que proponham e transmitam boas práticas na organização/gestão das instituições e dos seus capitais humanos, o que certamente ajudaria a Guiné-Bissau a reencontrar o caminho do Positivismo.

 

O presidente JOMAV, foi a pessoa que pediu a mediação internacional para resolver a crise política guineense. Eu acredito que deviam ser os próprios guineenses a resolveram os seus problemas internos. Como é que articula a presença da CEDEAO em termos da forma como conduziram ou analisaram os conflitos na Guiné-Bissau desde 1998 até à data presente?

 

A CEDEAO tem sido feliz nalgumas situações, e infeliz noutras, tendo em conta os conflitos na Guiné-Bissau desde 1998 aos dias de hoje, pois enquanto organização regional virada para a integração económica e social na qual a Guiné-Bissau está inserida, também necessita de reformas estruturais de fundo, que aliás têm sido propostas, discutidas, analisadas, e implementadas, visando precisamente mais e melhor CEDEAO, numa perspetiva de complementaridade entre a integração económica e social dos Estados-membros e a cooperação e concertação, política numa abrangência multidisciplinar entre todos eles.

 

A CEDEAO, infelizmente, em matéria de cooperação e concertação política entre os Estados-membros, é dominada por tendências, suportadas por interesses e conveniências, dentro e fora da organização, o que muitas vezes tem prejudicado a sua ação interventiva, sobretudo em matéria de resolução de conflitos políticos ou militares nos Estados-membros, e o caso da Guiné-Bissau é disso o maior exemplo.

Aliás, a forma como a Guiné-Bissau é (mal) tratada nas diversas organizações de que faz parte é culpa dos próprios políticos e governantes guineenses, pois que, ao longo dos anos, fizeram com que o nosso país perdesse o respeito e a sua consequente afirmação no concerto das nações!

 

Se é verdade que cabe aos guineenses a resolução dos seus conflitos, também não é menos verdade que até hoje, os guineenses continuam a teimar na promoção desnecessária de crises internas, sem solução, pois que, continuam de costas voltadas ao invés de se olharem frente a frente, conversarem em harmonia e com respeito, visando entendimentos sobre o que os diverge, por forma a não ser necessário o recurso recorrente à mediação da CEDEAO ou doutras organizações da qual é Estado-membro.

 

 

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