A Consciência Social

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A Consciência Social: Aqui está a segunda e a última parte da entrevista com o grande comentador político, Fernando Casimiro

Introdução

 

Caro leitor, aqui está a última parte da entrevista feita com o poeta e comentador político, Fernando Casimiro. A consciência social pediu ao comentador político para esclarecer os seguintes temas: A identidade Guineense, o papel dos nossos intelectuais, o combate a corrupção, a reconciliação nacional que a Guine Bissau necessita e por último o enigma que existe à volta das eleições legislativas previstas para o dia 18 de novembro. 

 

Honesto, informativo, e consistente são as palavras que a Consciência Social usa para descrever os argumentos que constam nesta entrevista. De uma forma ou de outra, esta colaboração, ajudou a “pôr os pontos nos is” especialmente quando se trata da opinião Publica.

 

Após a independência em 1974, os valores que tínhamos na altura tais como: a disciplina, tolerância, patriotismo, pontualidade, integridade, honestidade, respeito ao Estado de direito, entre outros, foram perdidos no caminho da formação da nossa identidade nacional. A identidade guineense não está bem articulada. Concordas ou não com o argumento?

 

Sem ignorar a pertença da Guiné ao Império do Mali e ao Reino de Gabu, diria que houve um choque civilizacional entre o percurso vivencial de cinco séculos desde a chegada dos primeiros portugueses em 1446 à Guiné, (e a sua colonização efetiva), com a sua visão, os seus princípios, os seus valores e as suas influências: sociais, culturais e religiosas, que culminaram na aculturação dos diversos grupos populacionais da Guiné de então, cujo destaque maior, assenta na formação do “kriol”, a língua Nacional da Guiné-Bissau, e o surgimento do Estado da Guiné-Bissau, numa perspetiva de retorno à sua pertença africana e na redefinição, formação e afirmação da identidade guineense consequente do Estado forjado a partir da luta armada de libertação nacional e proclamado pelo PAIGC.

 

Se a aculturação consequente da colonização portuguesa foi um facto, entre o positivo e o negativo, conforme o juízo de cada um, também é um facto que o PAIGC enquanto Partido-Estado e força política dirigente da sociedade, desde a passagem de testemunho da Administração do poder territorial até à abertura democrática pluralista, teve uma ação marcante, na formação (positiva ou negativa, conforme os casos e os juízos de cada um), de uma nova sociedade, através da imposição dos seus princípios e dos seus valores, em forma de metodologias, quer de âmbito político, social, cultural etc., visando precisamente romper com o passado assente nas marcas da aculturação consequente da colonização portuguesa.

 

É entre as marcas da colonização portuguesa na Guiné e o existencialismo das suas influências políticas, sociais, culturais e até religiosas, na sociedade guineense, nativa e assimilada por um lado, e as marcas do dirigismo partidário do Estado administrado pelo PAIGC de 1974 até à realização das primeiras eleições multipartidárias na Guiné-Bissau em 1994 por outro, que temos bases de estudo, análise e comparação (sobretudo nas vertentes: social e cultural, sem ignorar a religiosidade), sobre o que já foi, ou continua a ser importante na estruturação e articulação do ser guineense; na definição e caraterização da Identidade Guineense.

 

Obviamente que o Ser Guineense não veio “ao mundo” com a chegada dos portugueses em 1446 e tão pouco, com a chegada do PAIGC em 1974, mas estes dois marcos são importantes para a articulação das múltiplas caraterísticas que compõem e definem a nossa identidade nacional e, por conseguinte, ajudam a caraterizar o ser guineense contemporâneo.

 

Qual é o papel social que os intelectuais guineenses deviam seguir?

 

A intelectualidade guineense deveria ser promotora e protetora das reservas morais Guineenses, através do reconhecimento, da valorização e afirmação da integridade intelectual.

 

Deveria ser igualmente, a parte neutra, atuante, comprometida, transparente, positiva e construtiva, de apoio ao conhecimento multidisciplinar, servindo de ponte entre a Governação e a Sociedade, em prol da afirmação, da boa imagem e do desenvolvimento da Guiné-Bissau.

 

Qual é a sua leitura sobre as eleições legislativas que supostamente serão realizadas no dia 18 de novembro?

 

Depois de várias eleições realizadas desde 1994, os Guineenses sabem que as suas realizações, mais do que resolver os problemas da Guiné-Bissau e, consequentemente do povo, têm servido para legitimar os órgãos do poder, resolver os problemas e as ambições desmedidas dos políticos, como também, provocar novas crises políticas, para que outros interesseiros, não legitimados nas eleições, possam também ser enquadrados no sistema do poder e, assim, usufruírem, igualmente, do pote de mel do poder.

 

Independentemente de as eleições virem a ser realizadas na data prevista ou serem adiadas, poderemos vir a ter uma disputa eleitoral “de vida ou de morte” caso não se faça uma campanha de sensibilização cívica, em nome da paz e da harmonia social (de tão divididos que estão os Guineenses), com apelos ao respeito pelas diferenças, à contenção/moderação e tolerância quer no período pré-eleitoral, quer pós-eleitoral, visando não só os partidos políticos, seus dirigentes, militantes e simpatizantes, mas todo o Povo eleitor.

 

Com tantos partidos políticos existentes, creio que haverá muitas coligações pré-eleitorais, ou deserções de militantes de alguns partidos para ingresso noutros, pois os pequenos partidos não têm condições financeiras e, ou, logísticas para se organizarem e se apresentarem em pé de igualdade com os 2 maiores partidos políticos guineenses.

 

Com tanta divisão social e atendendo às dificuldades financeiras da maioria da população, estas eleições serão as que terão o maior grau de manipulação e instrumentalização do cidadão eleitor, quer no país, quer na diáspora e possibilitarão, infalivelmente, coligações pré e pós-eleitorais, para a formação de um Governo capaz de garantir a estabilidade política e governativa, sob pena de se dar continuidade à crise da legislatura anterior.

 

Aproveito a oportunidade para sensibilizar os meus irmãos guineenses para votarem, independentemente das mágoas manifestadas através de reivindicações justas, pois ainda que as eleições não tenham resolvido nada a favor da Guiné-Bissau e da maioria do Povo Guineense, ao longo dos anos, os tempos são outros, e se houver votos conscientes, a Mudança Positiva será uma realidade na Guiné-Bissau! Sim ao Voto, pela Mudança, na forma, no conteúdo e na abrangência, por uma Guiné-Bissau Positiva!

 

Fonte: A Consciência Social © Protected

 

Como é que devíamos combater a corrupção na Guiné-Bissau?

 

A corrupção é um crime, um flagelo Global relacionado com comportamentos desviantes do ser humano, sustentado pela ganância, espiritual e material, que deve ser combatido com políticas e medidas adequadas, eficazes, quer através da Sensibilização e da Educação, numa perspetiva preventiva, quer através de medidas legais, numa perspetiva punitiva, de cumprimento da lei e de reinserção social.

 

Por ser um flagelo Global que atua numa rede globalizada, deve merecer interações globais, numa vertente de concertação, de partilha, de busca de melhores meios de luta para o seu combate, porém, ainda assim, no caso da Guiné-Bissau, é preciso que as autoridades judiciais, policiais e outras, façam a parte que lhes compete, para que a prática do crime de corrupção seja punida e não promovida como um ato de bravura.

 

A corrupção na Guiné-Bissau também é promovida e sustentada a partir do exterior, não só por guineenses, mas também, por estrangeiros e mesmo internamente, por estrangeiros que lá exercem diversas atividades diretas e, ou, indiretas, por isso, a cooperação internacional, no âmbito da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção é importante para a Guiné-Bissau em matéria de combate à corrupção. Combater a corrupção é também alicerçar a Justiça e ajudar a consolidar o Estado de Direito e Democrático!

 

Ao longo dos 45 anos houve vários assassinatos e violências. Mas até hoje os autores dos crimes, nunca chegaram a ser julgados. Tudo isto demonstra a fragilidade da nossa justiça. Existe ódio e rancor entre os guineenses. Concordas que para a Guiné se desenvolver é preciso que exista uma reconciliação nacional? Qual é a sua posição?

 

Uma vez escrevi que a Justiça é o primeiro fator de credibilidade de um país e mantenho essa convicção, numa constatação prática da realidade da Guiné-Bissau ao longo de 45 anos de independência. Um dos maiores erros cometidos na fase embrionária, de um percurso experimental de políticos e governantes inexperientes na Guiné-Bissau, foi precisamente, a assunção do PAIGC (partido que proclamou a independência nacional) como Partido-Estado e, consequentemente, força política dirigente da sociedade.

 

Como é que a Justiça de um Estado pode assentar nas normas/regras de qualquer partido político que seja e, neste caso particular, de um partido, vindo de uma luta armada de libertação de onze anos, na qual a “justiça das armas” e a “justiça popular” de revanchismo, de acusações infundadas, sem direito a defesa, sentenciava quase sempre inocentes à morte, por fuzilamento, para além de abusos, torturas etc.? Como é que podemos falar de Justiça quando o estatuto do poder e a força das armas estavam acima do respeito pela dignidade humana, ainda que, a Constituição de 24 de setembro de 1973 fizesse referência à Declaração Universal dos Direitos do Homem?

 

Independentemente da despartidarização do Estado, e consequentemente, da Justiça, com a abertura ao multipartidarismo em 1991 e à democracia representativa com as eleições gerais de 1994, a projeção, promoção e consolidação do Estado de Direito e Democrático foi sempre condicionada pelos mesmos poderosos de sempre, num país de constante instabilidade política e militar.

 

Os agentes judiciários foram sempre reféns e cúmplices do poder político e militar, preferindo preservar suas vidas e manter os seus cargos, a terem que desafiar os violadores do sistema, pela afirmação do Estado de Direito e agindo em nome da Lei. Foi assim que a cultura da impunidade ganhou raízes e se afirmou na Guiné-Bissau.

 

É um facto que os crimes de sangue, os abusos e as humilhações, cometidos por (ou a mando de) diversas personalidades de diversos poderes ao longo de 45 anos, na Guiné-Bissau, despoletaram o ódio e o espírito de vingança entre os guineenses, na ausência de apuramento de responsabilidades e da consequente responsabilização criminal, em nome da Justiça, dos alegados mandantes e, ou, atores desses crimes, tendo essa indiferença contribuído para a afirmação da impunidade e para a degradação de valores sociais e comportamentais na sociedade guineense.

 

Creio que todos os Guineenses estão cientes da necessidade de se promover a Reconciliação Nacional (e desejam-na), aliás, não é de agora que se vem falando sobre essa necessidade, quer por parte dos Políticos, das Forças de Defesa e Segurança, da Sociedade Civil e das Confissões Religiosas, ainda que até agora não se tenha conseguido passar das intenções aos atos.

 

A Reconciliação Nacional pode vir a ser o maior contributo para o desenvolvimento da Guiné-Bissau através da harmonização e da paz social, bem como, para a afirmação da Justiça e do Estado de Direito.

É necessário que os Guineenses se reconciliem, através da verdade, do perdão, do amor e da Justiça.

Faço questão, se me permitir, de partilhar um poema da minha autoria, versando precisamente sobre as cicatrizes, marcas que perduram, tendo em conta a necessidade da Reconciliação Nacional…

 

NOSSAS CICATRIZES

 

Marcas que perduram

Do passado sem data

No tempo que já lá vai

Ao presente no tempo

Do Estado que erigimos

Guineenses que somos

 

Nossas cicatrizes

 

Tatuadas em corpos

Com feridas na alma

De mentes recalcadas

De corações que sangram

Entre o amor e o ódio

A dor e o prazer da Vida

A bondade e a maldade

Guineenses que somos

 

Oh Tempo!

Senhor das cicatrizes

Juiz do juízo dos juízes

Milagreiro das curas

Possíveis e impossíveis

Por que tardais por nós

Guineenses que somos…

 

 

 

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